O que segue abaixo são palavras ditas por William Bratton, ex-Chefe de Polícia nas cidades de Boston, New York e Los Angeles, em uma entrevista à revista Veja. Em New York ele foi o responsável pela drástica redução da criminalidade na conhecida operação Tolerância Zero, durante a administração do prefeito Rudolph Giuliani.
"Em meu departamento, todo investigador pode chegar ao posto mais alto da carreira policial. Não ter chance de ascender é algo desestimulante em qualquer carreira.
Vocês têm uma divisão na Polícia Militar (os oficiais, a partir de tenente) em que os policiais até sargento são de uma classe social diferente da dos oficiais. Os soldados não podem chegar ao topo.
E enquanto os policiais civis e investigadores são de uma classe, os delegados são de outra classe, pois são advogados. É um sistema extraordinariamente complexo, que não tem a equidade existente na polícia dos Estados Unidos.
Eu comecei minha carreira como policial. No Brasil, seria um simples soldado a vida toda. Jamais conseguiria ascender ao cargo de oficial e, depois, ao de chefe de polícia, como cheguei. Seria no máximo capitão ou major. Eu teria de ir a uma faculdade de direito para me tornar delegado".
E o senhor Bratton nem disse nada sobre as três polícias que existem aqui: a PM a Polícia Civil e as Guardas Municipais, que por conta disso necessitam de tudo triplicado: comandos, delegacias, centrais de comunicação. Porém, enganou-se ele ao dizer que aqui o soldado da PM pode chegar a capitão ou major.
Até pode, se ele for de uma classe social mais alta, e por isso não vai precisar fazer bico para complementar o salário, e assim terá tempo livre para cursar a escola para oficiais. Caso contrário, como a grande maioria não consegue fazer o curso, nunca passam de sargento.
Mas isso não é o que deve ser mais destacado na entrevista de Bratton. O que deve ser ressaltado é que, de fato, nos Estados Unidos, é comum se ver policiais fardados jantando no mesmo restaurante em que há policiais mais graduados, como investigadores, capitães e outros. Coisa que não existe aqui no Brasil, onde prevalece a separação entre as patentes: soldados de um lado, oficiais do outro.
Investigadores e escrivões de um lado, delegados do outro.
Mas o que melhor se tira da entrevista do senhor Bratton é a essência da diferença que existe entre os dois países, qual é a maior virtude do grande país do norte – e mais importante do mundo –, e as mazelas e defeitos do nosso País. Ou seja, onde está o segredo do sucesso dos norte-americanos: a simplicidade, a objetividade, o pragmatismo.
Basta compararmos a Constituição de 1787 dos EUA (simples, objetiva e compacta: apenas sete artigos e 27 emendas), e a nossa confusa, contraditória, e excessivamente detalhista Constituição de 1988 (250 artigos e 63 emendas).
E também podemos comparar a língua inglesa, com sua simplicidade de regras gramaticais, forma e lógica, com a nossa complicadíssima língua portuguesa.
Na língua inglesa a inexistência de assentos é algo que a torna muito mais simples, e se não fosse uma questão de época, poderíamos até dizer que foi uma decisão sob encomenda para ser a língua apropriada para se escrever programas de informática.
Enquanto isso, o Brasil ficou anos discutindo filigranas de acentuação, para uma reforma ortográfica tímida, e a espera da concordância de Portugal, como se os 193,4 milhões de brasileiros tivessem o mesmo peso dentro da língua portuguesa que os 10,7 milhões de portugueses.
A questão que os lingüistas e filólogos deveriam se fazer é: se o país mais desenvolvido do mundo tem uma língua que não usa acentos, e nem o arcaico "ç", porque raios precisamos usar acentos, o "ç", trema? Não seria muito mais útil, econômico e pratico dispensar tudo isso? Mesmo porque a pronuncia, como ocorre com o inglês, continuaria como é, e uma das boas coisas praticas seria usar-mos o mesmo tipo de teclado que se usa nos EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália...
O Brasil é um país complicado. Tem muitas leis inúteis e que nem são cumpridas (vadiagem, não é cumprida, mas está no Código Penal. Usura, que trata de juros excessivos, idem). Outras, são absurdas (como a que exige aviso nas portas dos elevadores dizendo para a pessoa olhar se o elevador está onde deve estar, antes de entrar). Um emaranhado jurídico sem igual no mundo, e um sistema tributário arcaico, deficiente e burocrático.
O sistema educativo público forma semi-analfabetos, e o sistema penal é equivocado e tolerante (o criminoso pode matar quantas pessoas quiser, porque só vai ser condenado por um assassinato. E a cada pessoa de classe média assassinada no Rio, as pessoas da zona sul saem em passeata, em vez de pedirem a revisão das leis).
E enquanto países sem qualquer beleza natural, para atrair turistas com dinheiro criam infra-estruturas que geram mão de obra qualificada, nós ainda ficamos dando excessiva importância cultural, social e televisiva ao carnaval, que não agrega nada de conhecimento tecnológico, desenvolvimento e prosperidade, às iludidas comunidades faveladas.