Pode soar estranho a muita gente, porque, fazendo coro com as declarações de Lula pela preferência pelo avião francês Rafale, o chanceler Celso Amorim, o ministro Arnaldo Jobim, e até mesmo o deputado Jose Genoino, estão tão afinados em divulgar à imprensa distintas frases, mas com o mesmo significado:
"Não se pode comprar equipamento militar como se fosse um objeto em uma prateleira de um shopping", disse o deputado José Genoino (PT-SP). "O presidente da França (Nicolas Sarkozy) falou em transferência de tecnologia irrestrita", manifestou-se o ministro Nelson Jobim, dizendo bobagem, porque saiu em todos os jornais que quem acenou com transferência "quase irrestrita", foram os suecos. E o insuspeito Celso Amorim, "O barato às vezes sai caro". Além de um outro integrante do governo que se saiu com isto: "O avião sueco ainda está no papel". Na verdade é a versão NG que está no papel, um aperfeiçoamento do atual Gripen, que voa há anos.
Mas se formos pensar no grande interesse que o atual governo sempre demonstrou em conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, e a grande ajuda que a França pode dar a esta pretensão (Sarkozy já disse que vai apoiar o Brasil), a sincronia com que integrantes do governo tem se manifestado a favor do caça francês – como se todos fossem experts em aviação de caça – começa a fazer sentido.
E o pior é que, se a defesa pelo avião que custa o dobro do preço, e que não é o melhor tecnicamente, por este ângulo começa a deixar mais claro o porquê da insistência na tal "decisão política", por outro lado podemos estar presenciando a tentativa antecipada de se justificar o que pode ser o inicio de um novo tipo de mensalão.
Não é preciso nem ser sargento especialista da aeronáutica para se concluir que, decisões sobre quais armamentos as Forças Armadas devem usar não podem ser tomadas na base da "decisão política", porque são equipamentos que além de serem tecnicamente sofisticados (principalmente no caso de aviões), as pessoas em melhores condições de avaliar seus desempenhos e vantagens, são... aquelas que irão usá-los!
Esta possível manobra para encobrir uma nova articulação para compra de votos, desta vez para uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, pode custar ao País bem mais caro que o mensalão do PT, porque são quase US$ 70 milhões a mais, em cada avião.
A tal da "decisão política" e a chamada "parceria estratégica com a França", na verdade parecem mais conversa para boi dormir, e pela orquestração com que alguns petistas as defendem, notadamente o deputado Jose Genoino – que teve notória participação no mensalão do PT –, tem tudo para estar encobrindo um possível futuro "françalão".
Na verdade, nem o Gripen-NG, na opinião de alguns especialistas em aviação de caça, é a melhor opção técnica para o Brasil. No governo FHC o caça russo Sukhoi Su-35 Super Flanker estava na concorrência. Com preço próximo dos US$ 100 milhões, ou seja, acima do avião sueco mas ainda bem mais barato que o Rafale francês.
Uma das principais qualidades do avião russo é seu raio de ação de 1.500 km sem reabastecimento no ar, e isso tendo dois motores, pois é um avião feito por um país com a maior área territorial, de longe, do mundo: a Rússia tem 17 milhões de km², o segundo maior país, o Canadá, um pouco mais da metade, 10 milhões de km, e o Brasil, 8,5 milhões de km.
O três aviões que ainda estão na concorrência tem os seguintes raios de ação: Saab Gripen NG, 1.600 km. Dassault Rafale, 1.033 km. Boing F-18 SH, 1.300 km. Mas a performance do Su-35 ainda é melhor na quantidade e qualidade dos armamentos que pode carregar, nos dois radares, e alcance dos mísseis, segundo dados do site Defesa BR.
Além de alguma possível restrição quanto a transferência de tecnologia por parte da Rússia, só outra causa pode explicar o fato do avançado Su-35 não estar mais entre os finalistas: um possível resquício de desconfiança entre as Forças Armadas brasileiras pelo passado comunista da Rússia. Se foi esse o motivo, seria uma grande bobagem, porque a Rússia há muitos anos é tão capitalista quanto os Estados Unidos e a França. Mas não apóia o Brasil no Conselho de Segurança da ONU.