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Veronezzi

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TAMANHO DA LETRA
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O coronel que era contra a democracia, e que se elegeu várias vezes  Comentários(0)

Após seus bem vividos 85 anos, vários mandatos de vereador e deputado e inúmeras namoradas, faleceu de câncer em 4 de janeiro de 2010 o coronel reformado do Exército, Antonio Erasmo Dias.

Desde antes da ditadura militar terminar, o coronel Erasmo se vangloriava de ser um implacável caçador de comunistas, e principalmente, de estudantes simpatizantes com idéias socioculturais que não fossem aquelas que seus superiores tinham lhe incutido no quartel. Uma delas era que o povo não podia votar ou, só votar em candidatos favoráveis a ditadura militar.

Apenas poucos amigos e suas seis filhas compareceram ao velório, realizado no salão nobre da Assembléia Legislativa de São Paulo. Honra reservada somente a pessoas ilustres do Estado. Mas no mínimo duas pessoas não devem ter concordado com tamanha distinção à alguém que lutou contra a democracia.

Essas duas pessoas são Iria Visoná e Graziela Eugenia Augusto, que em 22 de setembro de 1977, ambas com 23 anos e estudantes, por azar tinham ido à PUC, no bairro de Perdizes na capital paulista, para o congresso proibido da UNE (União Nacional dos Estudantes), dia em que o coronel Erasmo comandou cerca de 500 soldados da tropa de choque, agentes do Dops (a polícia política da época) e muitos policiais civis (que segundo testemunhas idôneas, estavam extremamente agitados e com os olhos vidrados), na invasão da faculdade.

Não houve mortes, mas os relatos da invasão chocam, principalmente porque contra os cadernos e canetas dos estudantes, os policiais entraram bem armados. Com coturnos, cassetetes, escudos, armas, e bombas. De vários tipos. E certamente as que causaram as queimaduras de terceiro grau na perna esquerda, do joelho ao pé de Iria, e o fogo que atingiu Graziela no abdome, braço esquerdo e mãos, não eram bombas de gás lacrimogêneo.

Por mais que tentem esquecer, e sem nunca terem clamado por nenhum tipo de revanchismo nas raras entrevistas, deve ser difícil a elas concordar com tamanha distinção que vereadores e deputados de São Paulo deram ao coronel, pois hoje, com 53 anos, idade próxima a algumas das filhas do coronel Erasmo, ainda carregam nos seus corpos as marcas que as atitudes covardes fizeram e que a medicina e o tempo não conseguiram extinguir.

"Bomba incendiária? Pelos meus netos e filhos eu afirmo que não tinha. Era bomba de gás. Aquilo só faz chorar. Havia uns 500 ou 600 estudantes, massa de manobra dos pernósticos e maquiavélicos leninistas e marxistas. O local era acanhado. Tinha muita mulher e mulher não tem jeito para correr, tem perna presa. Queriam reabrir a UNE em ato público, uma desobediência à norma vigente, desacato ao princípio da autoridade. Era ilegal, eu não podia permitir. Não se pode afrontar o poder constituído. Eu era responsável pela ordem pública. O material que achamos na PUC era de alto teor subversivo. Eles rodavam panfletos vermelhosinhos, coisa de Libelu (Liberdade e Luta). Não sei quem jogou a primeira bomba, foi aquela desgraça. Sabe como começa, não sabe como termina. Só tinha mulher. Queimaram porque usavam calcinha e sutiã de náilon. Uma sentou em cima da bomba de lacrimogêneo. Sentar numa caixa de fósforos também queima. Não cometi crime, nem excessos. A operação seguiu os métodos recomendáveis. Agi no estrito cumprimento do dever."

Essas declarações do coronel Antônio Erasmo Dias foram feitas em 2008, referindo-se a invasão que ele comandou contra a PUC, quando era secretário da Segurança Pública de São Paulo. São palavras para se defender de crimes de agressão violenta ("era bomba de gás", "não cometi crime, nem excessos"), mas se contradiz ao afirmar que "O material que achamos na PUC era de alto teor subversivo", ou seja, panfletos.

Segundo vários relatos (no blog Luis Nassif Online pode-se ler muitos depoimentos de quem estava lá em 1977, pois são mais de 120 comentários) o pretexto da invasão foi a tentativa de reativar a UNE (a qual estava proibida de existir - segundo atos baixados por generais que tomaram o poder), e havia sim muito material subversivo: faixas e cartazes contra o governo. Igualzinhas as que vemos hoje em qualquer passeata na Avenida Paulista ou em Brasília. Seja de professores, ou de funcionários públicos (auditores e fiscais da Receita Federal, funcionários do Banco Central, Policia Federal, e alguns outros, nem precisam fazer passeata. Basta fazerem greves para chantagear o governo. Na verdade, a população).

E contra o arsenal de guerra dos estudantes, constituído por faixas e cartazes, os corajosos policiais, a mando do coronel Erasmo e dos generais da ditadura, batiam com cassetetes mesmo em quem já estava caído no chão. Os 500 policias militares e civis começaram a ir para as cercanias da PUC as 5 horas. E permaneceram de prontidão até a ordem do ataque, que foi só no início da noite. Durante todo o dia poderiam ter impedido os estudantes de terem se reunido e frustrado a reunião. Mas não era isso o que os generais queriam (o coronel, o governador, e outros, apenas cumpriam ordens, mas também por cumprirem ordens os generais de Hitler foram condenados).

Eles queriam prender todos os que pudessem para dar um exemplo ao resto dos estudantes do País. Foram 700 estudantes presos a golpes de cassetete, pontapés e bombas, que causaram queimaduras em 15 pessoas, cinco de terceiro grau, e com mais gravidade à Iria e Graziela.

"A invasão foi premeditada. O estacionamento em frente virou campo de concentração". Afirmou na época o padre João Edênio Valle, vice-reitor da PUC.

"...por volta de 6 da tarde, os estudantes se retiraram da PUC e foram para o Tuca (o teatro da PUC). Dei orientação: o Tuca é da PUC, não intervenham. A tropa estava nas ruas desde cedo. Às 6 e meia, os estudantes deixaram o teatro e foram enfrentar a polícia na rua. Atiraram pedras. O Erasmo me ligou: E agora, o que eu faço? Quem deu a ordem para intervir foi eu. Mandei impedir baderna de estudante na rua. Os policiais tiveram que jogar bombas de gás. Os estudantes invadiram e se refugiaram na PUC. Uma versão é que a reitora (Nadir Kfouri), segundo o Tuma (senador Romeu Tuma, na época diretor do Dops), pediu à polícia que protegesse o patrimônio da PUC. A outra versão é que os estudantes correram para o campus e a polícia foi atrás. Eu infringi o decreto presidencial das 10 horas até o início da noite. A ação policial não foi ato do Erasmo. Essa responsabilidade eu assumo... Não havia bomba incendiária. Era lacrimogêneo. Umas moças tentaram pegar e jogar de volta nos policiais. Acabaram se queimando. Eu não tinha e não tenho ânimo contra a universidade... Não me arrependo de nada. Com decreto ou sem decreto, faria tudo de novo. Se fosse governador, novamente eu repetiria tudo, exatamente como fiz".

Declarações do então governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, fingindo que era a autoridade máxima no Estado, quando todo mundo sabia que o coronel Erasmo Dias cumpria ordens diretamente do Comando do II Exercito, sediado na capital paulista. Pois na época todos os Secretários de Segurança Pública, de todos os Estados, estavam subordinados aos Comandos dos respectivos exércitos nos Estados.

"Eram centenas os soldados. Havia muita gente de fora da PUC no campus. Dezenas dos que assistiam ao ato se transformaram em policiais. Começaram a gritar e a bater. Eram infiltrados. Bombas de gás e de efeito moral estouravam. Pânico e correria. A ocupação foi premeditada. Eles sabiam quem queriam prender. No momento culminante da invasão, o estacionamento ficou lotado de prisioneiros de guerra, agachados e em silêncio, como os vietcongues capturados pelos americanos no Vietnã. Ouvi de um policial que quatro ou cinco meninas estavam muito feridas. Fui até lá, na lateral do Tuca. Jaziam no chão, queimadas. O cheiro era ruim, uma estava desmaiada". Padre João Edênio, vice-reitor comunitário da PUC.

"Os invasores pareciam drogados, descontrolados, olhos vidrados. Jogaram os arquivos para o ar, entortaram máquinas de escrever. Os mais excitados eram jovens em trajes civis. Eles gritavam, xingavam, nos chamavam de comunistas. Uma brutalidade medieval. Apanhei porque contestei. Quando agrediam os alunos, eu intervim: Mas os alunos não estão reagindo, não batam.? Me cobriram de tapas na cara e bastonadas no braço que ficou adormecido. Moças queimadas! Até as folhas dos coqueiros lá no alto ficaram esturricadas. Disseram que haviam usado gás napalm, que os americanos lançaram no Vietnã. Selvageria, noite de cão." Professor Paulo Edgar Resende, diretor da Faculdade de Ciências Sociais, na época.

"Lá embaixo, as bombas estouravam. A invasão se deu pelo prédio velho, pela frente e pelas ruas laterais. Os alunos iam saindo de mãos dadas, humilhados. Ação do arbítrio, fascista. Exposição pública da prepotência para espezinhar." Professor Hermínio Alberto Marques Porto, 81 anos, então diretor da Faculdade de Direito da PUC

"Pretendiam comprometer a universidade na pessoa da sua reitora e do vice-reitor como provocadores de ação subversiva. Ao invés de apurarem abusos, violências e lesões, o que se pretendia era estabelecer a responsabilidade da reitoria por crime contra a segurança nacional. Queriam travestir as vítimas em réus. Predominava toda uma mentalidade repressora." Miguel Reale Júnior, advogado da reitoria da PUC na época.

Há muitos mais relatos. Basta procurar na internet. Mas o incrível é que ninguém foi punido e, o senhor Antonio Erasmo Dias foi eleito várias vezes vereador e deputado estadual, mesmo após esses episódios. Ou terá sido por causa desses episódios? Pois certamente seus milhares de eleitores devem ter ouvido falar sobre o episodio da PUC e da sua lealdade a pessoas que na época não eram nem um pouco favoráveis a existência de eleições livres e liberdade de expressão.

Mas ironicamente, só com o fim da ditadura militar e a volta da democracia plena é que todas essas pessoas puderam elegê-lo várias vezes.



Publicado por Veronezzi, em 15/01/2010 01:07 - ( 0 Comentários )
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