Nos primeiros dias do ano a imprensa (Folha de S. Paulo e Veja) divulgou informações que deveriam ficar sob sigilo – mas que por outro lado foi muito útil a FAB, como veremos adiante –, sobre a preferência da Aeronáutica pelo caça Gripen NG sueco, para o seu projeto FX-2 de reequipamento com aviões de caça de última geração.
A decisão política começou em 7 de setembro de 2009, quando o presidente Lula recebeu o presidente da França Nicolas Sarkozy para o tradicional Desfile da Independência e, precipitadamente, mas bem calculadamente, divulgou sua preferência pelo caça Rafale francês, aproveitando o comunicado oficial de um amplo acordo militar Brasil-França.
No dia seguinte a Aeronáutica reagiu tecnicamente para deixar claro que o seu relatório ainda não tinha sido apresentado ao presidente da República. E estava criado o impasse entre a decisão política do presidente, e a decisão técnica de quem realmente entende de aviões de combate: a Aeronáutica.
Agora, com o vazamento – providencial – de que a preferência da FAB é pelo caça sueco, o governo, o ministro da Defesa Nelson Jobim, e o governo francês, aumentaram o lobby pelas alegadas vantagens que a escolha do avião francês trará ao Brasil. Mas por melhor que estejam sendo divulgados os press-releases aos jornalistas desavisados, fica difícil defender a escolha francesa diante dos seguintes argumentos, que diz a Folha, foram apontados pela FAB:
1. Econômico: o Saab Gripen NG sueco vai custar cerca de US$ 70 milhões cada. O Boing F-18 SH, US$ 113 milhões, e o Rafale francês, US$ 140 milhões (agora o governo francês já fala em um desconto de 40%).
Independente deste improvável desconto, não adianta o governo francês falar em desconto, porque a decisão final é do fabricante, a Dassault. E ainda assim estará mais caro que o Gripen NG. E principalmente pelo fato do Rafale e do F-18 terem dois motores, o custo de manutenção deles é quase quatro vezes maior que o monomotor Gripen NG.
2. Estratégico: as três propostas dizem que farão ampla transferência tecnológica. Só que falar para a imprensa é uma coisa e a pratica é outra. O F-18 americano, assim como toda transferência de tecnologia estratégica dos Estados Unidos, é dependente do Congresso americano.
O governo francês é mais liberal neste ponto, mas o Rafale é um projeto totalmente pronto, e até a Embraer que tem a Dassault como sócio minoritária e é a fabricante do Rafale, informou à Aeronáutica seu desinteresse em ser parceira e revendedora para outros países porque o preço é muito alto.
No caso do Gripen NG, por ser um projeto em desenvolvimento (a partir do atual Gripen), quem participar com os suecos estará adquirindo tecnologia e, o mais importante, que não foi divulgado pela grande imprensa, poderá decidir de forma própria e secreta como serão os sistemas eletrônicos, os chamados "softwares embarcados". E o relatório da FAB, acertadamente, não considerou como ponto negativo o Gripen NG ser monomotor. Nos aviões de caça a maior segurança para os pilotos está nos assentos ejetores. E os três usam assentos da Martin-Baker.
3. Técnico: sendo o Brasil um país continental e não tendo condições econômicas para manter várias esquadrilhas espalhadas por todos os Estados, qual é um dos fatores mais importantes na escolha de um avião que consiga cobrir grandes áreas, sem reabastecimento em vôo? Nem precisa ser técnico para responder: seu raio de ação ou, alcance.
Esta, e outras informações de performance não são divulgadas pelos fabricantes, mas segundo especialistas em aeronáutica os dados aproximados são os seguintes:
Saab Gripen NG: velocidade máxima: 2.125 Km. Carga bélica: 6.000 Kg. Alcance: 1.600 Km.
Dassault Rafale: velocidade máxima: 2.124 Km. Carga bélica: 8.000 Kg. Alcance: 1.033 Km.
Boing F-18 SH: velocidade máxima: 1.910 Km. Carga bélica: 8.000 Kg. Alcance: 1.300 Km.
Além da desvantagem do Rafale quanto ao seu raio de ação, é importante ressaltar que os dados do Gripen NG ainda podem ser melhorados por se tratar de projeto em desenvolvimento. Mesmo sendo dados aproximados, fica evidente que a alegada maior performance dos Rafale e F-18, por terem duas turbinas, é mais propaganda dos fabricantes e de seus governos, do que realidade.
Ainda segundo a grande imprensa, que evidentemente não faz jornal para interessados em aviões de caça, a decisão caberá somente ao presidente da República, por ser uma "decisão política". Não, não é. Decisão política é sobre reforma política, fiscal, ligada a governabilidade, legislativo. A decisão é muito mais técnica e ligada a aspectos tecnológicos.
Por isso não deveria ser tomada apenas pelo presidente da República. Seja ele de que partido for. O melhor seria um colegiado decidir. Com a participação do presidente da Republica, claro, mas sem ele ter mais de 50% dos votos.
Considerando uns bons 20% de desconto que a Dassault poderá dar por pressão do governo francês, 36 Rafale custarão US$ 4,032 bilhões, contra US$ 2,520 bilhões do Gripen NG. É US$ 1,512 bilhão a menos. E por um produto que não é inferior. É muito dinheiro para ficar na decisão de uma única pessoa. Mesmo essa pessoa sendo o presidente da Republica.
Porem, como indicam claramente os desejos de Lula e governo, a decisão pelo avião mais caro – mesmo assim não sendo o melhor, segundo os especialistas – vai causar um grande desperdício de dinheiro. Dinheiro que não é do presidente, nem do governo. É da população que paga impostos. Muitos e caros impostos.
Outro ponto que também não foi divulgado pela grande imprensa, pela mesma razão já apontada, diz respeito a importância dos softwares embarcados, responsáveis por ativar nos aviões de caça contramedidas de despistamento aos radares e aviões inimigos, e ao mesmo tempo, propiciar que os aviões do Pais possam se comunicar entre eles e com as bases, sem serem interceptados pelos aviões inimigos.
Tanto o F-18 como o Rafale, por serem produtos prontos e já operando, dificilmente (mesmo a custa de muito dinheiro), poderão ter seus sistemas de softwares de vôo modificados ao gosto e necessidades do freguês. Ou seja, ter seus softwares alterados para ficarem de propriedade da FAB em segredo. Como é só no desenvolvimento final dos novos projetos que esta parte é definida, no caso do Gripen NG, o Brasil fica em totais condições de decidir como, e qual sistema vai querer, e de posse dos softwares-proprietários e códigos em segredo.
Se for para pensar em aviões de última geração de verdade, a opção é o F-35 norte-americano, mas só se os segredos dos softwares embarcados ficarem de conhecimento do comprador e, do vendedor. Caso contrário, o Congresso americano não aprova a venda. E foi por isso que este avião nem entrou na concorrência. Além de o seu preço ser quatro vezes maior que o do Gripen NG.
A outra opção que acenava com ampla transferência de tecnologia de softwares-proprietários era a russa, com os Sukhoi Su-35BM, mas que ficou fora da concorrência antes dos três finalistas. Enquanto isso... a Venezuela do senhor Hugo comprou da Rússia os mesmos Sukhoi Su-35, que dizem, seria superior aos três finalistas em raio de ação, velocidade e carga bélica. Além de ter preço e custo de manutenção pouco superiores ao Gripen NG.
Contudo, se a decisão deve ser política, por se tratar de segurança nacional, este é um bom motivo para que ela não seja tomada apenas por um homem, pois a segurança nacional diz respeito a toda população, e alem do mais, este homem está no final do seu mandato.